Saúde mental infantojuvenil: telepsiquiatria e novos protocolos

21 de setembro de 2026
Saúde mental infantojuvenil: telepsiquiatria e novos protocolos

A saúde mental infantojuvenil ocupa um espaço cada vez maior nas discussões sobre prevenção, diagnóstico e organização da assistência. Ao mesmo tempo, novas tecnologias ampliaram as possibilidades de acompanhamento de crianças e adolescentes, enquanto protocolos mais recentes passaram a dar maior atenção ao rastreamento, à identificação de riscos e à integração entre diferentes pontos da rede de cuidado.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no material Mental health of adolescents, atualizado em 2025, aproximadamente um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos apresenta algum transtorno mental. De acordo com a organização, ansiedade, depressão e transtornos comportamentais estão entre as principais causas de doença e incapacidade nessa faixa etária.

Nesse contexto, a telepsiquiatria deixou de representar apenas uma alternativa utilizada em situações excepcionais. Hoje, ela pode integrar o acompanhamento de determinados pacientes, desde que o médico avalie as condições clínicas, a segurança e as limitações do atendimento remoto.

Além disso, protocolos recentes reforçam uma abordagem mais estruturada para identificar alterações emocionais e comportamentais, avaliar risco de suicídio e organizar o encaminhamento quando necessário.

Neste artigo, você vai entender quais são as principais tendências em saúde mental infantojuvenil, como a telepsiquiatria pode participar do atendimento e quais protocolos recentes estão influenciando a avaliação e o acompanhamento de crianças e adolescentes.

Por que a saúde mental infantojuvenil exige uma abordagem específica?

Crianças e adolescentes atravessam diferentes etapas de desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social. Por isso, transtornos psiquiátricos podem se manifestar de maneiras diferentes das observadas em adultos.

Alterações do comportamento, queda no desempenho escolar, mudanças importantes no sono, isolamento, irritabilidade e dificuldades nas relações familiares, por exemplo, podem aparecer em diferentes condições. No entanto, nenhum desses sinais deve ser interpretado de maneira isolada. A avaliação precisa considerar idade, desenvolvimento, contexto familiar, ambiente escolar e história clínica.

De acordo com a OMS, no documento Mental health of children and young people: service guidance, publicado em 2024, os serviços destinados a crianças e jovens devem priorizar modelos de atenção integrados às comunidades e articulados com diferentes pontos de assistência.

Nesse contexto, a tendência não está apenas na adoção de uma nova tecnologia. O avanço também envolve organizar melhor a jornada do paciente, aproximando atenção primária, assistência especializada, família, escola e outros profissionais envolvidos no cuidado.

No Brasil, esse movimento ganhou novo respaldo em 2026. A Lei nº 15.413, de 21 de maio de 2026, alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para incluir o direito de crianças e adolescentes a programas de saúde mental no Sistema Único de Saúde.

Segundo a legislação, a assistência deve contemplar atenção psicossocial básica e especializada, urgência, emergência e atendimento hospitalar. Além disso, a lei prevê formação específica e permanente dos profissionais para detectar sinais de risco e realizar o acompanhamento adequado.

Telepsiquiatria é uma das tendências em saúde mental infantojuvenil

A telepsiquiatria corresponde à utilização de recursos de telemedicina na assistência psiquiátrica. Dependendo das condições do paciente, o médico pode utilizar tecnologias digitais em diferentes etapas do acompanhamento.

A American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP) reúne orientações específicas sobre esse modelo no Telepsychiatry Toolkit. O material foi desenvolvido em colaboração com a American Psychiatric Association e aborda aspectos clínicos e operacionais do atendimento psiquiátrico remoto de crianças e adolescentes.

Além disso, estudos recentes procuram avaliar os resultados dessa modalidade. Segundo a revisão sistemática com meta-análise Effectiveness of telepsychiatry interventions for youth with depressive and/or anxiety disorders, publicada em 2025, intervenções realizadas por telepsiquiatria apresentaram melhora de sintomas de ansiedade e depressão entre os jovens incluídos nos estudos analisados.

No entanto, os próprios autores classificaram parte das evidências disponíveis como de certeza moderada ou baixa. Por isso, os resultados não permitem concluir que a telepsiquiatria seja adequada para todos os pacientes ou que substitua o acompanhamento presencial em qualquer circunstância.

Dessa forma, o atendimento remoto deve ser entendido como uma possibilidade dentro de um plano terapêutico individualizado.

Como funciona a telepsiquiatria no Brasil?

No Brasil, a utilização da telemedicina deve seguir as regras estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina.

De acordo com a Resolução CFM nº 2.314/2022, a telemedicina pode ocorrer em modalidades como teleconsulta, teleinterconsulta, telemonitoramento e teletriagem. A norma também estabelece que cabe ao médico avaliar se o atendimento remoto é adequado às necessidades do paciente.

Além disso, segundo o Conselho Federal de Medicina, a assistência presencial permanece como referência para o atendimento médico. Quando o profissional considerar que as informações obtidas remotamente são insuficientes ou identificar necessidade clínica, deve indicar atendimento presencial.

A mesma resolução determina que pacientes com doenças crônicas ou situações que exijam acompanhamento prolongado tenham consulta presencial com o médico assistente em intervalos não superiores a 180 dias.

Na saúde mental infantojuvenil, outros fatores também precisam entrar nessa decisão. A idade, o desenvolvimento do paciente, sua capacidade de comunicação, o ambiente em que ocorre a consulta e a participação dos responsáveis podem interferir diretamente no atendimento.

Enquanto crianças menores geralmente dependem de participação mais ativa dos responsáveis, adolescentes podem precisar de momentos individuais de conversa com o médico. Por isso, a organização da teleconsulta deve considerar também privacidade e confidencialidade, respeitando os limites éticos e legais aplicáveis.

O rastreamento ganha espaço nos novos protocolos

Uma das mudanças observadas nos protocolos de saúde mental infantojuvenil é a adoção de estratégias mais sistemáticas de rastreamento. O objetivo é identificar sinais que justifiquem uma investigação clínica mais aprofundada antes que determinadas situações produzam prejuízos ainda maiores ao funcionamento do paciente.

Segundo o relatório clínico Promoting Optimal Development: Screening for Mental Health, Emotional, and Behavioral Problems, publicado pela American Academy of Pediatrics (AAP) em 2025, o rastreamento de problemas mentais, emocionais e comportamentais pode fazer parte do acompanhamento pediátrico periódico.

O documento também apresenta recomendações específicas relacionadas ao rastreamento de ansiedade, depressão e risco de suicídio conforme a faixa etária. Entretanto, essas orientações foram elaboradas para o contexto norte-americano e não substituem protocolos brasileiros.

Ainda assim, o material demonstra uma tendência relevante: incorporar perguntas e instrumentos estruturados à avaliação clínica para identificar pacientes que precisam de investigação adicional.

Além disso, questionários de rastreamento não estabelecem diagnósticos isoladamente. Um resultado alterado precisa ser interpretado junto à história clínica, ao exame do estado mental, ao funcionamento escolar e social e às informações fornecidas pelos familiares.

Avaliação do risco de suicídio recebe maior atenção

A avaliação do risco de suicídio também aparece com destaque em protocolos recentes.

Segundo o relatório clínico Suicide and Suicide Risk in Adolescents, publicado pela American Academy of Pediatrics em 2024, o rastreamento inicial e a avaliação clínica do risco representam etapas diferentes. Quando o rastreamento apresenta resultado positivo, o profissional precisa aprofundar a investigação.

De acordo com o documento da AAP, avaliar somente sintomas depressivos pode não identificar todos os adolescentes em risco. Por isso, a investigação pode incluir perguntas específicas sobre ideação suicida, comportamentos anteriores, fatores de risco e elementos de proteção.

Na sequência, os achados ajudam a definir a necessidade de avaliação mais aprofundada, planejamento de segurança, participação dos responsáveis e encaminhamento para atendimento especializado.

No Brasil, o profissional também deve considerar os protocolos do serviço e a rede disponível. Quando houver risco imediato, a situação pode exigir atendimento presencial e encaminhamento para serviços de urgência ou emergência.

Novos protocolos também priorizam integração do cuidado

As mudanças na assistência não se limitam ao uso de escalas ou questionários. Protocolos e orientações recentes também reforçam a necessidade de organizar melhor a rede de cuidado.

Segundo a terceira edição do Mental Health Gap Action Programme (mhGAP), publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2023, as recomendações atualizadas abrangem condições como depressão, ansiedade, automutilação, suicídio e transtornos mentais de crianças e adolescentes.

O documento foi desenvolvido principalmente para apoiar profissionais não especialistas em determinados contextos de assistência. Por isso, não deve ser interpretado como um protocolo único para a Psiquiatria da Infância e da Juventude.

No entanto, o mhGAP reforça uma direção importante: avaliação inicial, identificação de gravidade, manejo adequado e encaminhamento precisam fazer parte de uma linha de cuidado organizada.

Além disso, o documento Mental health of children and young people: service guidance, publicado pela OMS em 2024, recomenda fortalecer serviços comunitários e modelos integrados de saúde mental para crianças e jovens.

Nesse modelo, diferentes profissionais podem participar do acompanhamento. Dependendo das necessidades do paciente, psiquiatras, pediatras, médicos de família, psicólogos e outros profissionais podem atuar de forma articulada.

Tecnologia digital vai além da consulta por vídeo

A digitalização da saúde mental infantojuvenil não termina na teleconsulta. Plataformas digitais, aplicativos, programas terapêuticos on-line e outras ferramentas também passaram a ser estudados como recursos complementares.

Segundo a revisão sistemática e meta-análise Internet- and mobile-based anxiety and depression interventions for children and adolescents: efficacy and negative effects, publicada no European Child & Adolescent Psychiatry, intervenções digitais apresentaram resultados que indicam potencial para o manejo de ansiedade e depressão em crianças e adolescentes.

No entanto, o estudo também aponta limitações nas evidências disponíveis sobre possíveis efeitos negativos. Portanto, a simples existência de uma solução digital não significa que ela possua evidências suficientes para utilização em qualquer contexto clínico.

Além disso, a revisão Updates on digital mental health interventions for children and young people: systematic overview of reviews, publicada em 2025, mostra que diferentes formatos de intervenção digital continuam sendo estudados. Os níveis de evidência e as características das ferramentas, entretanto, variam consideravelmente.

Por isso, antes de incorporar esses recursos à assistência, o médico precisa considerar indicação clínica, idade do paciente, qualidade das evidências, proteção de dados e possibilidade de acompanhamento adequado.

Inteligência artificial começa a entrar na discussão

A utilização de inteligência artificial na saúde mental de crianças e adolescentes representa outra frente de discussão.

Segundo a declaração Policy Statement on the Role of AI in the Delivery of Child and Adolescent Mental Health Care, publicada pela American Academy of Child and Adolescent Psychiatry em 2026, ferramentas de inteligência artificial exigem atenção a aspectos como transparência, proteção de dados, vieses e segurança.

Além disso, a AACAP reforça que a utilização dessas tecnologias não deve eliminar o julgamento clínico. Ou seja, sistemas automatizados podem auxiliar determinados processos, mas não substituem a avaliação individual realizada pelo profissional.

Nesse contexto, a discussão sobre inteligência artificial acompanha uma tendência maior da Medicina: usar recursos digitais como apoio à prática, sem transferir para a tecnologia decisões que exigem análise clínica, responsabilidade médica e compreensão do contexto do paciente.

O que essas tendências mudam na prática médica?

O aumento das possibilidades de rastreamento, acompanhamento remoto e utilização de recursos digitais amplia a quantidade de informações disponíveis ao profissional. Ao mesmo tempo, torna a interpretação clínica ainda mais relevante.

O médico precisa reconhecer quando um instrumento de rastreamento indica necessidade de investigação adicional, quando o atendimento remoto fornece dados suficientes e quando o paciente precisa de avaliação presencial.

Além disso, crianças e adolescentes apresentam particularidades relacionadas ao desenvolvimento, à comunicação e à dinâmica familiar. Por isso, resultados de escalas ou informações obtidas digitalmente precisam ser relacionados à história clínica e ao contexto de vida do paciente.

Nesse contexto, acompanhar as tendências em saúde mental infantojuvenil não significa apenas conhecer novas ferramentas. Significa compreender onde elas podem contribuir, quais são seus limites e como integrá-las com segurança ao acompanhamento clínico.

Como aprofundar os conhecimentos em saúde mental infantojuvenil?

O desenvolvimento de novas formas de atendimento também aumenta a necessidade de atualização dos médicos que acompanham crianças e adolescentes.

Conhecimentos sobre desenvolvimento infantil, manifestações clínicas dos transtornos psiquiátricos, avaliação de risco e relação com familiares são fundamentais para compreender as particularidades dessa população.

Ao mesmo tempo, o profissional precisa acompanhar mudanças em protocolos e tecnologias. Dessa forma, pode avaliar com maior segurança quando utilizar recursos digitais, quando realizar rastreamentos específicos e quando encaminhar o paciente para uma assistência especializada.

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De acordo com a página oficial da São Leopoldo Mandic, a formação é exclusiva para médicos e possui proposta voltada ao desenvolvimento de competências teóricas e práticas relacionadas à atuação com crianças e adolescentes.

Segundo as informações institucionais disponíveis sobre o curso, a formação divulgada possui duração de 12 meses e carga horária de 420 horas/aula. Além disso, a página da instituição apresenta atividades ambulatoriais com pacientes reais entre os componentes da experiência de formação.

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Considerações finais

As tendências em saúde mental infantojuvenil mostram que a transformação da área envolve diferentes frentes. Telepsiquiatria, rastreamento estruturado, avaliação do risco de suicídio, integração entre serviços e ferramentas digitais começam a fazer parte de um cenário mais amplo de reorganização da assistência.

Ao mesmo tempo, os protocolos recentes reforçam que tecnologia e instrumentos de rastreamento não funcionam de maneira isolada. O médico continua responsável por interpretar os dados, avaliar as particularidades do paciente e definir quando determinado recurso pode contribuir para o cuidado.

Por fim, a atualização profissional ganha relevância diante desse cenário. Conhecer novas recomendações e compreender seus limites permite incorporar avanços sem perder de vista um dos principais elementos da saúde mental infantojuvenil: a avaliação individualizada de cada criança ou adolescente.

FAQ: Tendências em saúde mental infantojuvenil

O que é telepsiquiatria?

  • A telepsiquiatria utiliza tecnologias de comunicação para realizar determinadas atividades relacionadas à assistência psiquiátrica a distância. Segundo a Resolução CFM nº 2.314/2022, modalidades de telemedicina podem ser utilizadas desde que o médico avalie sua adequação ao paciente e respeite as normas aplicáveis.

A telepsiquiatria pode ser utilizada com crianças e adolescentes?

  • Sim. No entanto, o profissional precisa considerar idade, desenvolvimento, condição clínica, participação dos responsáveis, privacidade e capacidade de realizar uma avaliação adequada a distância.

Telepsiquiatria substitui consulta presencial?

  • Não de maneira automática. De acordo com a Resolução CFM nº 2.314/2022, o atendimento presencial permanece como referência. O médico deve indicar avaliação presencial quando considerar que o formato remoto não atende às necessidades clínicas do paciente.

Questionários podem diagnosticar transtornos mentais?

  • Não. Segundo as recomendações de rastreamento da American Academy of Pediatrics, instrumentos podem ajudar a identificar pacientes que necessitam de avaliação mais aprofundada. Entretanto, o diagnóstico depende de investigação clínica adequada.

Quais são as principais tendências em saúde mental infantojuvenil?

  • Entre as tendências atuais estão telepsiquiatria, rastreamento mais estruturado, protocolos específicos para avaliação de risco, integração entre diferentes serviços e crescimento das intervenções digitais. Além disso, inteligência artificial começa a entrar nas discussões sobre apoio ao cuidado em saúde mental.

Como se aprofundar em saúde mental de crianças e adolescentes?

  • Médicos interessados na área podem buscar formações específicas sobre desenvolvimento, diagnóstico, tratamento e acompanhamento psiquiátrico nessa população. A São Leopoldo Mandic oferece Pós-Graduação em Psiquiatria da Infância e da Juventude para médicos.

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Referências

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