Desafios da pediatria: da adesão dos pais ao subdiagnóstico infantil

15 de julho de 2026

Desafios da pediatria: adesão dos pais, subdiagnóstico e sinais de alerta que o médico generalista não pode ignorar.

Desafios da pediatria: da adesão dos pais ao subdiagnóstico infantil

Os desafios da pediatria raramente aparecem sozinhos: de um lado está a adesão dos pais ao tratamento infantil e às orientações médicas; do outro, a capacidade do profissional de reconhecer, a tempo, sinais que fogem do esperado. Assim, quando qualquer um desses pilares falha, o resultado tende a ser o mesmo: uma criança que chega tarde ao diagnóstico ou ao tratamento correto. Por isso, este guia reúne dados atualizados sobre adesão ao tratamento pediátrico e subdiagnóstico na infância, com foco no que o médico generalista pode fazer na prática diária.

Por que os desafios da pediatria exigem atenção na prática médica 

A não adesão a tratamentos de longo prazo afeta, em média, cerca de metade dos pacientes com doenças crônicas nos países desenvolvidos, de acordo com uma estimativa histórica da Organização Mundial da Saúde (OMS); em países em desenvolvimento, como o Brasil, esse índice tende a ser ainda maior. 

Entre os principais desafios da pediatria está a adesão dos pais ao tratamento infantil, já que quem decide seguir, ou não, a prescrição não é o próprio paciente, mas o cuidador.

Por outro lado, o subdiagnóstico em pediatria segue sendo um problema estrutural. Estimativas indicam que o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) atinge entre 5% e 15% das crianças no mundo, mas parte relevante desses casos, sobretudo entre meninas, que apresentam sintomas predominantemente desatentos, não é identificada a tempo. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estima que de 1% a 3% das crianças tenham atraso global do desenvolvimento, e outros 20% a 25% apresentem problemas de desenvolvimento e comportamento que podem evoluir para quadros graves quando não identificados precocemente. 

Desafios da pediatria no reconhecimento do subdiagnóstico infantil

Hesitação e queda na cobertura vacinal 

Entre os exemplos mais evidentes, a vacinação infantil representa uma das principais falhas na adesão dos familiares. A partir de 2015, o Brasil enfrentou uma queda contínua e generalizada nas coberturas vacinais infantis, cenário que se agravou em alguns imunizantes após 2020. Além disso, segundo dados de 2024 do UNICEF e da Organização Mundial da Saúde, o país voltou a ocupar a 17ª posição entre as nações com mais crianças não vacinadas, somando 229 mil crianças sem nenhuma dose.

A recuperação começou em 2022 e se acelerou em 2023, mas o Anuário VacinaBR 2025 mostra que, naquele ano, nenhuma vacina do calendário infantil atingiu a meta do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em todos os estados brasileiros. A vacina Penta (DTP/HepB/Hib), por exemplo, alcançou a meta de 95% de cobertura apenas entre 2013 e 2015, chegando a apenas 70,8% em seu pior ano, 2019. 

Por outro lado, dados mais recentes trazem sinais de melhora: no primeiro quadrimestre de 2025, o Brasil registrou aumento na cobertura de 15 das 16 vacinas do calendário nacional em comparação ao mesmo período de 2024, e a vacina tríplice viral ultrapassou a meta de 95% de cobertura em 2024, contribuindo para a recertificação do país como livre da circulação endêmica do sarampo. Ainda assim, a adesão segue desigual entre grupos: a cobertura de HPV em meninos, por exemplo, ficou em torno de 67,21% em 2024 — abaixo da meta, embora em avanço frente aos 45,43% registrados em 2022. 

Adesão a tratamentos contínuos e a doenças crônicas 

Fora do contexto vacinal, a baixa adesão também aparece em doenças crônicas da infância e da adolescência, incluindo transtornos psiquiátricos. Por isso, a literatura descreve a baixa adesão ao tratamento psiquiátrico infantil como um fenômeno multideterminado, que combina fatores clínicos (efeitos colaterais, complexidade posológica), familiares (crenças sobre a doença, vínculo com o serviço de saúde) e institucionais (acesso e continuidade do cuidado).

Fatores que dificultam a adesão dos pais 

  • Complexidade posológica: número de medicamentos, horários e restrições associadas ao tratamento 
  • Efeitos colaterais percebidos como mais incômodos do que o próprio sintoma 
  • Baixa escolaridade ou compreensão limitada sobre a doença e seu tratamento 
  • Crenças e desinformação, sobretudo em relação a vacinas 
  • Barreiras de acesso ao serviço de saúde e à continuidade do cuidado 

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Desafios da pediatria no combate ao subdiagnóstico infantil

TDAH: sobrediagnóstico em alguns contextos, subdiagnóstico em outros 

A prevalência estimada do TDAH varia conforme o método diagnóstico e a população estudada, situando-se entre 5% e 15% das crianças no mundo, com revisões apontando uma média global próxima de 7,2%. O diagnóstico é clínico, baseado em critérios do DSM-5-TR. Embora o sobrediagnóstico seja uma preocupação reconhecida em determinados contextos assistenciais, meninas com TDAH tendem a apresentar sintomas predominantemente desatentos — e por isso costumam ser negligenciadas nas triagens, o que resulta em diagnóstico tardio nesse grupo. 

Atraso do desenvolvimento e sinais de alerta negligenciados 

Nesse sentido, a ampla variação individual na aquisição de marcos do desenvolvimento pode levar à banalização de um sinal que, no contexto certo, merece investigação. Diferentemente da monitoração do crescimento — que é objetiva, baseada em curvas de percentis —, a monitoração do desenvolvimento depende da experiência do examinador, o que torna o reconhecimento tardio de um sinal de alerta um dos pontos de falha mais citados pela SBP em seu manual de orientação sobre avaliação neurológica infantil. 

Asma subdiagnosticada e subtratada 

Da mesma forma, um estudo epidemiológico conduzido com escolares e adolescentes de Santo André (SP), usando o questionário padronizado do International Study of Asthma and Allergies in Childhood (ISAAC), encontrou prevalência de asma variando de 4,9% a 26,8% entre escolares, a depender do critério diagnóstico empregado — o menor índice correspondeu ao diagnóstico médico formal e o maior, à referência a sintomas como sibilância. O subdiagnóstico e o subtratamento da asma respondem por parte relevante das hospitalizações pediátricas, e o atraso no diagnóstico tende a agravar os sintomas, gerar tensão familiar e aumentar os custos do tratamento. 

Obesidade infantil: uma condição que ainda demora a ser tratada como doença 

Segundo dados do UNICEF, a obesidade entre crianças e adolescentes brasileiros de 5 a 19 anos triplicou entre 2000 e 2022, passando de 5% para 15% da população, enquanto a desnutrição no mesmo grupo caiu de 4% para 3% — e o sobrepeso dobrou, de 18% para 36%. Segundo o Ministério da Saúde, a prevalência de obesidade no país aumentou 118% em duas décadas, e o World Obesity Atlas 2026 aponta que o Brasil já registra quase o dobro de jovens com excesso de peso em comparação à média global. Apesar da magnitude epidemiológica, a obesidade infantil segue frequentemente reconhecida tarde demais como condição clínica que exige intervenção estruturada, e não apenas orientação genérica sobre hábitos. 

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Como enfrentar os desafios da pediatria na prática clínica

  • Anamnese dirigida e escuta ativa dos cuidadores, priorizando a preocupação relatada pelos pais como dado clínico relevante 
  • Uso de instrumentos validados de rastreio do desenvolvimento, como o Ages and Stages Questionnaire (ASQ), o Parents’ Evaluation of Developmental Status (PEDS) e a classificação por áreas do Teste de Triagem de Denver II 
  • Utilização da Caderneta da Criança, instrumentalizada pelo Ministério da Saúde, como ferramenta de vigilância do desenvolvimento nas consultas de puericultura 
  • Comunicação clara sobre riscos e benefícios de vacinas e tratamentos, sem paternalismo e sem minimizar as dúvidas da família 
  • Encaminhamento oportuno a pediatras especializados em desenvolvimento ou a outras subespecialidades quando sinais de alerta persistem 

Dessa forma, diante dos desafios da pediatria relacionados à adesão familiar e ao diagnóstico tardio, ampliar o repertório sobre comunicação com a família, rastreamento do desenvolvimento infantil e diagnóstico diferencial permite ao pediatra antecipar hipóteses diagnósticas.

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Conclusão 

Por fim, os desafios da pediatria para o médico generalista combinam duas frentes que precisam de estratégias distintas: fortalecer a adesão dos pais por meio de comunicação clara e vínculo de confiança, e reduzir o subdiagnóstico por meio de anamnese estruturada, instrumentos de rastreio validados e atenção contínua aos sinais de alerta. Quanto mais integradas essas duas frentes estiverem na rotina da consulta, maior a chance de intervenção em tempo oportuno. 

Perguntas frequentes sobre desafios da Pediatria (FAQ) 

Por que os pais deixam de aderir a tratamentos ou à vacinação infantil? 

Os principais fatores incluem complexidade posológica, efeitos colaterais, baixa compreensão sobre a doença, desinformação — especialmente sobre vacinas — e barreiras de acesso ao serviço de saúde. Além disso, a não adesão a tratamentos crônicos de longo prazo afeta, em média, cerca de metade dos pacientes, segundo estimativa histórica da OMS, sendo esse índice geralmente maior em países em desenvolvimento.

Quais condições são mais frequentemente subdiagnosticadas na pediatria? 

TDAH subdiagnosticado (sobretudo em meninas), atraso global do desenvolvimento infantil, transtorno do espectro autista e asma estão entre as condições mais associadas ao subdiagnóstico na infância. A obesidade infantil, embora amplamente reconhecida como epidemia, também costuma ser tratada tardiamente como condição clínica que exige intervenção estruturada. 

Como o pediatra pode melhorar a adesão dos pais ao tratamento? 

Anamnese dirigida, escuta ativa, comunicação clara sobre riscos e benefícios, e uso de ferramentas como a Caderneta da Criança ajudam a fortalecer o vínculo com a família e a reduzir a não adesão, tanto a tratamentos contínuos quanto ao calendário vacinal. 

Qual o papel dos instrumentos de rastreio no diagnóstico precoce? 

Testes de triagem como o ASQ, o PEDS e o Teste de Triagem de Denver II são aplicáveis pelo médico generalista e ajudam a identificar desvios do desenvolvimento antes que se tornem sinais de alerta evidentes — sem substituir avaliações especializadas quando indicadas. 

Conteúdo com finalidade técnico-educativa, direcionado a médicos generalistas, profissionais em formação e pessoas interessadas no assunto. Não substitui avaliação clínica individualizada nem protocolos institucionais vigentes. 

Referências citadas no texto 

BRASIL. Ministério da Saúde. Brasil avança na vacinação de crianças e adolescentes com 1 milhão de doses aplicadas nas escolas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da criança: vigilância do desenvolvimento infantil e Caderneta da Criança (Passaporte da Cidadania). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024.

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS MUNICÍPIOS (CNM). Estudo técnico: avaliação das coberturas vacinais. Brasília: CNM, 2025.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (Fiocruz). Repórter SUS: Brasil avança na vacinação infantil, mas enfrenta desafios para retomar cobertura ideal. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2025.

INSTITUTO QUESTÃO DE CIÊNCIA; SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES (SBIm). Anuário VacinaBR 2025.

JORNAL DA USP. Cobertura vacinal infantil: onde estamos e para onde vamos. São Paulo: USP, 2025.

JORNAL DA USP. Obesidade avança no Brasil e acende alerta para impactos na saúde pública. São Paulo: USP, 2026.

UNICEF; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Unicef: obesidade infantil supera desnutrição pela 1ª vez no mundo. Agência Brasil, 2025.

Adesão terapêutica: contributos para a compreensão e intervenção. Redalyc, 2019.

Avaliação de critérios para o diagnóstico de asma através de um questionário epidemiológico. Jornal Brasileiro de Pneumologia.

Mapeando o TDAH no Brasil: prevalência e desigualdades por região, faixa etária e raça. Revista Contemporânea, 2024.

CID 11 para TDAH: entenda o código e o diagnóstico.

Baixa adesão ao tratamento em psiquiatria infantil: fatores clínicos, familiares e institucionais. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, 2026.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Sinais de alerta na avaliação neurológica da criança e do adolescente. Departamento Científico de Neurologia. Rio de Janeiro: SBP, 2020. (Manual de Orientação, n. 1).

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