Os desafios da Oftalmologia frente à demanda crescente por cirurgias

•19 de outubro de 2026
Entenda os desafios da Oftalmologia diante da demanda cirúrgica, da indicação da catarata à qualidade visual após o procedimento.
Os desafios da Oftalmologia frente à demanda crescente por cirurgias

Os desafios da Oftalmologia diante da demanda por cirurgias não se limitam à disponibilidade de salas operatórias. O cuidado começa com a indicação correta e continua na avaliação pré-operatória, na execução segura do procedimento e no resultado visual obtido pelo paciente.

A catarata permite observar essas etapas com clareza. Sua frequência aumenta com a idade, e a cirurgia pode recuperar função visual quando há indicação. Porém, contar procedimentos realizados não equivale a medir quantas pessoas voltaram a enxergar bem.

É essa diferença entre volume e resultado que orienta a discussão deste artigo.

O que explica a demanda por cirurgias oftalmológicas?

A catarata é a opacificação do cristalino. Em adultos, costuma provocar piora visual progressiva, redução de contraste e incômodo com luz. O Manual MSD para profissionais descreve o envelhecimento como seu principal fator de risco. Além disso, condições como diabetes, tabagismo, exposição à radiação ultravioleta e uso de corticosteroides também podem contribuir para o desenvolvimento da doença.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que mais de 94 milhões de pessoas vivem com catarata no mundo. Entretanto, a entidade estima que cerca de metade das pessoas que necessitam da cirurgia ainda não consegue acessá-la. É importante destacar que esses dados representam estimativas globais e não devem ser interpretados como indicadores específicos da população brasileira.

Portanto, esses números evidenciam dois desafios simultâneos para os sistemas de saúde. Por um lado, o envelhecimento da população aumenta a necessidade potencial de acompanhamento e tratamento. Por outro lado, as dificuldades de acesso aos serviços especializados impedem que parte dessa demanda seja atendida adequadamente.

Quais são os desafios da Oftalmologia na indicação cirúrgica?

Encontrar uma catarata não significa operar imediatamente. A decisão depende da relação entre a opacidade, os sintomas e as atividades prejudicadas. Também exige investigar se outra doença ocular explica parte da perda visual.

A diretriz NICE para catarata em adultos recomenda não restringir o acesso à cirurgia apenas por um valor de acuidade visual. Uma pessoa pode ter dificuldade importante com brilho ou contraste mesmo sem apresentar o pior resultado possível no teste de leitura.

A indicação precisa reunir achados clínicos e experiência do paciente. É diferente perguntar “qual é a acuidade?” e perguntar “o que essa visão impede a pessoa de fazer?”. As duas respostas são necessárias, mas nenhuma substitui a outra.

Como avaliar doenças que afetam o resultado esperado?

O exame oftalmológico deve relacionar os sintomas à catarata e investigar alterações associadas. Glaucoma ou degeneração macular, por exemplo, podem limitar a visão após a operação. Identificá-los ajuda a planejar o procedimento e a explicar expectativas de forma honesta.

A avaliação pré-operatória inclui medidas oculares para o cálculo da lente intraocular. Além disso, considera antecedentes que podem alterar o planejamento cirúrgico. Por exemplo, a NICE destaca que a realização prévia de cirurgia refrativa pode tornar o resultado refrativo menos previsível.

Por isso, a conversa com o paciente deve abordar os benefícios, os riscos, a recuperação e a eventual necessidade de utilizar óculos após o procedimento. Afinal, esse esclarecimento não representa apenas uma etapa burocrática, mas faz parte da decisão compartilhada. Dessa forma, o paciente pode compreender melhor as possibilidades e limitações da cirurgia, além de interpretar os resultados obtidos posteriormente.

Por que ampliar a oferta não basta?

Um indicador importante é a cobertura cirúrgica efetiva da catarata. Ele procura relacionar o acesso à cirurgia a um bom resultado visual. Assim, não contabiliza apenas quem foi operado.

Em uma análise divulgada em 2026, baseada em 233 inquéritos populacionais de 68 países, a cobertura cirúrgica efetiva global estimada para 2025 foi de 48,2% entre adultos de 50 anos ou mais. Entretanto, é importante destacar que se trata de uma estimativa modelada para os países e dados estudados, e não de um indicador específico do SUS.

Ao comentar essa pesquisa ao Jornal da USP, o professor e pesquisador João Marcello Furtado destacou que realizar mais cirurgias não é suficiente. Além disso, é necessário verificar a visão alcançada, corrigir erros refrativos residuais quando possível e lidar com eventuais complicações.

Dessa forma, a observação amplia a perspectiva sobre a gestão dos serviços de saúde. Afinal, além de medir o tamanho das filas e o volume de procedimentos realizados, é fundamental identificar quantos pacientes obtiveram o benefício visual esperado e em quais etapas ocorreram resultados insatisfatórios.

Segurança antes, durante e depois do procedimento

A segurança cirúrgica inclui confirmar a identidade do paciente, o olho a ser operado e a lente selecionada. A diretriz NICE recomenda conferir esses dados com a documentação e a biometria antes da operação.

A OMS publicou em 2026 recomendações sobre qualidade na cirurgia de catarata organizadas em três fases: pré-operatória, intraoperatória e pós-operatória. O princípio é simples: resultados dependem de todo o percurso, não apenas do ato cirúrgico.

O acompanhamento pós-operatório verifica recuperação, acuidade e necessidades adicionais de correção. Dor intensa ou piora da visão exigem avaliação rápida. Pacientes com outras doenças oculares podem precisar de seguimento específico, mesmo após uma cirurgia tecnicamente adequada.

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Qual é o papel das novas tecnologias?

Tecnologia pode ampliar possibilidades diagnósticas e terapêuticas, mas seu valor depende da indicação correta e dos desfechos obtidos. Nem todo paciente com duas doenças oculares se beneficia da mesma técnica combinada.

Em 2026, o Ministério da Saúde informou a incorporação ao SUS de uma abordagem cirúrgica combinada para catarata e determinados casos de glaucoma primário de ângulo aberto leve a moderado. A notícia descreve uma indicação delimitada. Ela não transforma a intervenção em escolha universal.

A atualização clínica exige ler essas condições de uso com rigor. Para o paciente, a pergunta relevante não é se a técnica é nova, mas se apresenta uma relação favorável entre benefício e risco no seu caso.

Resumo prático

  • O aumento da necessidade cirúrgica não elimina a avaliação individual.
  • A indicação da catarata considera função visual e impacto cotidiano, não apenas acuidade.
  • Outras doenças oculares podem limitar a melhora após a operação.
  • Cobertura efetiva relaciona acesso e resultado visual.
  • A qualidade depende de preparo, procedimento e seguimento.

Considerações clínicas

As cirurgias oftalmológicas precisam ser avaliadas como parte de uma linha de cuidado. Ampliar a oferta é necessário quando há demanda não atendida. Preservar indicação, segurança e resultado é igualmente necessário. Separar essas metas cria uma falsa escolha entre acesso e qualidade.

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Perguntas frequentes

Toda catarata diagnosticada precisa de cirurgia imediata?

Não. A decisão considera sintomas, impacto nas atividades, exame oftalmológico e preferências do paciente.

O número de cirurgias mede a qualidade do serviço?

Não isoladamente. É preciso acompanhar resultados visuais e identificar complicações ou necessidades de correção após o procedimento.

O que pode limitar a visão depois de uma cirurgia de catarata?

Doenças oculares associadas, complicações e erro refrativo residual são possibilidades que exigem avaliação específica.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. SUS vai oferecer cirurgia que trata glaucoma e catarata ao mesmo tempo. Brasília, 2026.

KHAZAENI, Leila M. Catarata. Manuais MSD: edição para profissionais, 2025.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Cataracts in adults: management. NICE guideline NG77. London: NICE, 2017.

CARCCI, Hugo. Global access to cataract surgery advances, but millions remain untreated. Jornal da USP, 24 abr. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. One in two people facing cataract blindness need access to life-changing surgery. Geneva: WHO, 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Summary of recommendations for quality of care in cataract surgery management. Geneva: WHO, 2026. 

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